Dados do município de São Paulo
Em São Paulo, foram identificados 2 óbitos puerperais de crianças de até 14 anos, uma em 2009 e outra em 2017. Nestes mesmos anos, houve 864 nascidos vivos em 2009, e 636 nascidos vivos em 2017, ambos somente de crianças de 10 a 14 anos [6].
Observando esse número bruto através da Razão da Mortalidade Materna, o resultado é, no mínimo, preocupante: a taxa é de 115,7 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 2009 e 157,2 óbitos por 100 mil nascidos vivos em 201;7: quase 6 vezes mais alta do que o máximo recomendado pela Organização Mundial da Saúde e Fundo de População das Nações Unidas para as Metas do Milênio [7].
É dizer: esses dois óbitos, que aparentemente representam um número bruto baixo, na verdade traduzem as muitas fragilidades de acesso aos direitos das crianças e adolescentes, já que – é importante relembrar – a gravidez de crianças de menos de 14 anos constitui necessariamente resultado de estupro de vulnerável, crime tipificado em lei desde 2009 [8].
Outra questão que chama atenção é a inconsistência de algumas informações nas bases de dados oficiais, indicando a importância do monitoramento do preenchimento das DNV’s (Declaração de Nascido Vivo) pelas secretarias municipais de saúde. Essa inconsistência é revelada quando, ao analisar os números de óbitos gravídicos-puerperais na faixa etária de até 14 anos, observa-se a inclusão de duas mortes de bebês de 0 e 1 ano (em 2008 e 2023, respectivamente) como sendo de óbitos gravídicos-puerperais. Ou seja, são mortes neo-natais e não gravídico-puerperais. Esse monitoramento é importante para que se verifique se é caso de morte de mãe criança ou adolescente e tome-se providência junto aos comitês de mortalidade e materna.
A RMM em crianças e adolescentes de até 14 anos segue alta, e os óbitos dessas crianças e adolescentes são sintomas de uma questão social que deve ser lida e tratada como consequência de um crime que deve ser prevenido, e não somente como uma questão de gravidez na adolescência, pois as ações para prevenir e combater o estupro presumido são mais abrangentes e envolvem procedimentos mais complexos.
[1] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Razão de mortalidade materna – C.3 (Taxa de mortalidade materna, coeficiente de mortalidade materna) [Internet]. Indicadores e Dados Básicos – IDB, 2ª edição revisada. Brasília: Ministério da Saúde; ano de publicação desconhecido. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/tabdata/LivroIDB/2edrev/c03.pdf
[2] Coletivo Feminista. Cartilha Eu acolho [Internet]. 2025. Disponível em: https://coletivofeminista.org.br/wp-content/uploads/2025/04/cartilha-eu-acolho.pdf
[3] Laurenti L, Mello-Jorge MHP, Gotlieb S-L, Davidson L. Reflexões sobre a mensuração da mortalidade materna. Cad Saude Publica. 2000;16(1):23-30. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/wbkH9DyZ3MJ5FcNdnGTHkcn/?format=html&lang=pt
[4] Gama SGN, Bittencourt SA, Theme-Filha MM, Takemoto MLS, Lansky S. Mortalidade materna: protocolo de um estudo integrado à pesquisa Nascer no Brasil II. Cadernos de Saúde Pública (Rio de Janeiro). 2024;40(4):e00107723 [Internet]. Disponível em: https://www.scielo.br/j/csp/a/DZjgmRXP8CyWvGHjF3W6dzQ/
[5] Leal M de C, Granado S, Bittencourt S, Esteves AP, Caetano K. Dados preliminares da pesquisa Nascer no Brasil II: pesquisa nacional sobre aborto, parto e nascimento 2022-2023 [Internet]. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2023. Disponível em: https://nascernobrasil.ensp.fiocruz.br/wp-content/uploads/2023/11/Dados-preliminares-da-pesquisa-Nascer-no-Brasil-2.pdf
[6] Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Painel de Monitoramento de Nascidos Vivos [Internet]. Disponível em: http://plataforma.saude.gov.br/natalidade/nascidos-vivos/
[7] Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). A razão da mortalidade materna no Brasil aumentou 94% durante a pandemia. Fundo de População da ONU alerta para grave retrocesso [Internet]. 18 out. 2022. Disponível em: https://brazil.unfpa.org/pt-br/news/razao-da-mortalidade-materna-no-brasil-aumentou-94-durante-pandemia-fundo-de-populacao-da-onu
[8] Rede Feminista de Saúde, Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos. Estupro presumido no Brasil: estudo sobre meninas mães em um período de dez anos (2010-2019), com detalhamento pelas cinco regiões geográficas e estados brasileiros [Internet]. Curitiba: Rede Feminista de Saúde; 2021. Disponível em: https://redesaude.org.br/wp-content/uploads/2021/10/Estudo-meninas-maes.pdf


