Acesso a serviços
de saúde
Gravidezes decorrentes de violência sexual
Entre 2019 e 2024, o Brasil registrou 137.860 casos de violência sexual contra crianças e adolescentes de 8 a 17 anos — sendo 99.191 estupros. Mais da metade ocorreu em adolescentes de 12 a 14 anos.
A maior parte dos casos de violência sexual contra crianças e adolescentes é dentro do próprio domicílio. Durante a pandemia de COVID-19, os casos aumentaram, com 17.416 em 2020 e 20.464 em 2021.
O isolamento e o fechamento de escolas aumentaram o risco e reduziram as denúncias, deixando crianças e adolescentes ainda mais vulneráveis.

Causas e determinantes
A gravidez na infância e na adolescência está ligada a fatores como:
- Início sexual sem informação e proteção;
- Desigualdade social e de gênero;
- Violência sexual e casamento na infância.
Em 2023, o Brasil era o 4º país no mundo em casamentos na infância, em números absolutos de meninas casadas com idade inferior a 18 anos: o que naturaliza a violência e compromete direitos fundamentais.
Comparadas à pessoas adultas, adolescentes enfrentam maior risco de complicações e morte em decorrência da gravidez por conta do processo de desenvolvimento e crescimento do corpo e sua fisiologia. Por isso, a gestação na infância aumenta riscos de pré-eclâmpsia, hemorragia, depressão pós-parto e mortalidade no ciclo gravídico-puerperal, enquanto bebês gestados por crianças e adolescentes enfrentam maior risco de prematuridade e complicações.

Acesso ao abortamento legal
Mesmo previsto em lei, o aborto legal ainda é de difícil acesso no Brasil. Entre 2019 e 2024, dos 22.282 casos de estupro com gestação, sendo que 64,7% deles ocorreu em crianças e adolescentes com menos de 14 anos.
É importante destacar que toda gravidez de criança ou adolescente com menos de 14 anos pressupõe ter sido resultado de violência sexual, já que a legislação brasileira considera que todo ato sexual com pessoa menor de 14 anos é estupro presumido.
Ainda assim, apenas 1.175 crianças e adolescentes (5,2%) tiveram acesso ao procedimento. Isso significa que quase 19 meninas engravidam em decorrência de violência sexual para cada 1 que consegue acessar o aborto legal.
As principais barreiras:
- Poucos serviços disponíveis;
- Burocracia e objeção de consciência institucional;
- Falta de acolhimento e informação.
O aborto legal é direito garantido em casos de violência sexual, risco de vida ou anencefalia, mas a realidade mostra negligência e violação de direitos reprodutivos.
Peregrinação por um direito
Crianças e adolescentes muitas vezes precisam viajar centenas de quilômetros para conseguir atendimento. O Brasil tem 416 hospitais habilitados para realização do aborto legal, mas menos de 100 de fato realizam o procedimento.
A concentração é alta nas capitais e grandes centros — especialmente no Sudeste — deixando o Norte e o Centro-Oeste quase sem cobertura. Essa desigualdade força a peregrinação, com alto custo emocional, financeiro e físico. Mesmo em trajetos curtos, o problema vai além da distância: envolve transporte precário, estigma e falta de confidencialidade.

Casos extremos registram deslocamentos de até 1.600 km, como de Marabá (PA) a Recife (PE).
Nenhuma criança deveria peregrinar por um direito já garantido.
O cuidado reprodutivo é parte essencial da dignidade, da proteção e da justiça social.
Subnotificação e atraso nas notificações
Entre 2019 e 2024, 22.282 gestações por estupro foram notificadas, mas 39% dessas notificações ocorreram apenas no terceiro trimestre, o que compromete o acesso ao aborto legal.

A maioria envolve crianças e adolescentes negras (79%), concentradas no Norte e Nordeste — regiões com menor acesso à saúde sexual e reprodutiva.
Barreiras de acesso
Crianças e adolescentes enfrentam grandes obstáculos para acessar serviços de saúde sexual e reprodutiva. Entre as principais estão:
- Falta de confidencialidade e acolhimento sem julgamento;
- Pouca oferta de métodos contraceptivos e testagem para ISTs;
- Desigualdades regionais e socioeconômicas no acesso aos serviços.
Mesmo quando procuram ajuda, crianças e adolescentes, pouco ofertados pelo SUS.
A ausência de educação sexual integral (ESI) nas escolas e o peso de normas culturais e familiares aumentam a vulnerabilidade a gravidezes não planejadas e à subnotificação de ISTs.
O que o SUS oferece — e o que ainda falta
O SUS disponibiliza preservativos, DIU de cobre, pílulas, injetáveis, implante subdérmico, anticoncepção de emergência e até métodos permanentes (laqueadura e vasectomia).
Mas o acesso ainda é desigual:
- Persistem falhas na distribuição e estigma;
- Falta de profissionais capacitados;
- Escassez de serviços especializados em áreas remotas, especialmente no Norte e Nordeste.
Diretrizes nacionais e da OMS reforçam: o atendimento deve ser sigiloso, sem exigência de autorização de responsáveis e com oferta diversificada de contraceptivos, além de testagem rápida e educação sexual integrada.
Atenção primária como porta de entrada
Fortalecer a Atenção Primária à Saúde (APS) é essencial para garantir cuidados integrais e acolhimento sem estigma.
Serviços acessíveis e confidenciais, com aconselhamento adaptado à idade, reduzem gravidezes precoces e mortes evitáveis.
A ampliação do acesso a métodos contraceptivos é uma das estratégias mais eficazes de prevenção e autonomia reprodutiva.
A importância do pré-natal acolhedor
O pré-natal de qualidade é decisivo para salvar vidas. Para adolescentes, deve incluir:
- Acolhimento sem julgamento;
- Avaliação de riscos psicossociais;
- Rastreamento intensivo de infecções e hipertensão;
- Integração com saúde mental, nutrição e proteção social
Nos casos de violência sexual, o atendimento deve garantir acolhimento, anticoncepção de emergência, coleta de vestígios e exames forenses, profilaxia para ISTs e HIV, com articulação rápida entre APS, urgência e serviços especializados.
Garantir a autonomia reprodutiva de crianças e adolescentes exige:
- Descentralizar serviços de aborto legal;
- Capacitar equipes de saúde para acolhimento sem julgamento;
- Eliminar barreiras burocráticas e respeitar o sigilo;
- Integrar saúde, assistência e justiça para respostas rápidas;
- Investir em educação sexual, prevenção e informação segura.


